Histórias que nos curam

Por Dra. Lidia Sabbadini

Mais uma vez me perguntaram, como eu tive coragem de colocar meu pai em uma geriatria.

[Pois é… quando meu pai teve alta hospitalar, depois de um AVC extenso, a alegria de ir-se embora, aprisionou-se, em uma cadeira de rodas, com a sentença: ele não poderá mais caminhar e precisará de assistência 24 h/dia.]

[Lembro aquele momento da dura notícia para ele, um homem ativo, elegante, veloz na direção de seu carro, tomando conta de sua vida em seus plenos 87 anos.]

[Enquanto também me refazia, em uma respirada só, acolhia seu olhar fixo em mim com todo aquele espanto que pode conter. Tateava, escolhendo palavras, procurando moldar uma expressão facial que mentalmente me parecesse digna e alvissareira para o olhar do pai. Acredito que sem êxito.]

[Parece que foi ontem, mas já, lá se vão, 2 anos e 8 meses do seu acidente vascular cerebral extenso.

[E então Lídia, tu ainda não respondeu como tu conseguiu decidir colocar teu pai numa geriatria? Tu não te sentes culpada de viver tua vida feliz e ele lá?]

[Pois é, quanta intensidade nestas perguntas… Não sou especialista no assunto e muitas vozes poderão se erguer, porém, penso que esta angústia, estes questionamentos existem porque há um enorme ponto negligenciado, ingenuamente, por todos nós. Cogito que as perguntas estejam escondidas por aqui e por ali porque estamos mergulhados no preconceito intitulado ‘abandono aos pais que atiramos em uma clínica para nos livrar do problema’.]

[Não, não é verdade. Pode ser a realidade para alguns poucos. Entretanto nas conversas que tenho com vários familiares (e aqui cabe esclarecer que quando falo pai, pais, leia-se qualquer familiar ou amigo), nesta nova família que fui sendo incluída, percebo que estamos todos atônitos e procurando aprender a ser e estar com eles. Temos consciência que em nossas circunstancias, é o melhor que podemos fazer, por eles e por nós. A nossa relação de responsabilidade é diferente da daquela pessoa que vai de visita, me entende!?

[ Lidi, tu ainda não respondeu!!]

[É que juntamente com nossos pais, também somos freados. Por incrível que pareça nos damos de cara com a finitude e com o sofrimento que não passa, como passa uma gripe.]

[Há dor no tempo que eles levam para ‘rebobinar a fita’, aprender a desapegar, a aceitar continuar suas vidas em um lugar diferente, com novos companheiros, novos cheiros, novos comandos, novas mãos os tocando para vestir, desvestir, ir ao banheiro, comer e tudo o mais.]

[Há dor no desapego de nossa idealização. É tudo tão exigente. Vejo o desânimo que lhe abate depois que as poucas visitas, chegam contando de suas vidas alegres e cheias de viagens. Como o pai me disse um tempo atrás: não tenho mais vontade de falar. Digo sempre que está tudo bem. Só contigo mostro minha raiva e ranço.]

[Lidiiii, como tu conseguiu?]

[Ah é! Bom, penso que minha primeira intenção foi de controlar (o incontrolável) e solucionar. Mas logo, me rendi. Impossível. Rapidamente, entendi que junto, com as decisões que teria que tomar – vinha algo que não sabia: a dura opinião dos outros. Estas me deixaram de frente com minhas conversas internas relacionadas à minha própria impotência e a uma possível ‘vergonha social’ que está ligada a fantasia de uma família com final feliz e de escancarar que não estamos sabendo nos cuidar. Além disso, e mais uma vez, um grande medo: se ele está assim hoje, talvez, no futuro, eu? Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais?]

[Ah tá, como decidi? Bom, não fui eu quem decidiu, foram os acontecimentos e seu contexto.]

[Acontece que quando ouvi que ficaria cadeirante, olhei mentalmente para minha casa, para a minha vida…; olhei para a casa dele, para sua vida… E observei que tanto ele como eu, vivíamos em lugares cheios de escadas. Grande impeditivo.

[Nova pergunta me instiga: E te sentes culpada?]

[Não, nem um pouco. Ao contrário, me sinto corajosa!]

[Tá certo que já tive medo, que chorei muito, me inundei de frustração. Mas me recuperei rápido com o socorro da alma: muita meditação, silêncio e oração. Isto tudo me deu aquela coragem, aquela valentia de abortar meus planos e sonhos e dedicar um afeto genuíno nas coisas que teria que fazer pra ele e por ele, com maior vigor, como dividir meu tempo e meus recursos.]

[Notei que as perguntas lhe subiam pela garganta: e como tu podes ser feliz com teu pai morando em uma clínica?]

[Bom, sei lá meu anjo. O que sei é que com o passar dos meses, fui descongelando minha vida. Saí daquela paralisia emocional que um adoecimento grave, que nos comove e revira nossas tripas, nos coloca. Assim que continuei a fazer meu máximo para ele, e também, a buscar entender que é bom pra mim que eu me faça feliz de verdade (além de parar de conviver com pessoas que não me querem bem). Entendi que meu pai em uma clínica, que agora é a casa dele, com questões semelhantes às dele, é a melhor possibilidade possível, dentro do cenário atual.]

[Quanto a eu estar feliz, ou melhor, eu me fazer feliz dentro de uma felicidade possível, faz parte da minha parte saudável que olha, igualmente, para mim e para minha alma. Confesso que tem sido muito exigente dar um stop nas encenações que estamos habituados a fazer quando o assunto é felicidade, alegria ou dor e sofrimento. Tenho procurado me agradar, invés de aos outros. Se me sinto feliz, alegre – estou. Se me sinto triste, frustrada – também.]

[As perguntas cessaram.]

[Porém, a mim, agora dentro de toda esta narrativa,  nasce o velho e bom questionamento: O que aprendi com tudo isto?]

[Não sei direito, contudo, há incontáveis transformações, em nós, quando nos deixamos tocar pelo outro, né não?! Aprendi que acolher dores e sofrimentos; que oferecer afeto genuíno; é mesmo muito bom porque nos liga, nos reconecta com o ser simples e sincero que há em nós. São tantas bordoadas (ensinamentos, melhor colocando) que hoje digo que não devemos nos preocupar com o que quer que venha pela frente. Teremos coragem. Teremos força. Como disse Simba: Somos mais do que mil, somos um! ]

[Imensa gratidão!]

Cirurgiã- Dentista. Especialista em Ortopedia Funcional dos Maxilares e em Física Quântica na Saúde. Mestre em Administração Estratégica.  Pós graduanda em Psicologia Positiva. Terapeuta Vibracional; Naturopata; Coordenadora de Retiros; Facilitadora de Ho’oponopono e Meditação. Escritora. Trabalha com ciência e espiritualidade.

print

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

68 − = 65

Pin It on Pinterest